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A herança imensurável de Niède Guidon na Serra da Capivara e no cotidiano dos piauienses

Trabalho da cientista consagrou o parque como Patrimônio da Humanidade e transformou a realidade social da região

A arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon deixou uma marca indelével no Sul do Piauí e na ciência internacional. A pesquisadora faleceu em 4 de junho de 2025, aos 92 anos, na cidade de São Raimundo Nonato. Ao longo de mais de 50 anos de dedicação ininterrupta, ela transformou o Parque Nacional da Serra da Capivara em um dos maiores polos arqueológicos do planeta e em referência para a compreensão do povoamento do continente americano.

Nascida em São Paulo, Guidon trocou seu estado natal para estudar a fundo os sítios da Caatinga piauiense. Sua liderança foi decisiva para que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) outorgasse ao local o título de Patrimônio Cultural da Humanidade no ano de 1991. Toda essa trajetória de vida e pesquisa foi relembrada no especial “Dia do Nordestino”, levado ao ar pela TV Globo na madrugada do último sábado (10).

A atuação de Niède ultrapassou a pesquisa científica e modificou o contexto socioeconômico regional. Entre as iniciativas criadas por ela, destaca-se a contratação de mais de 60 mulheres para atuarem como guariteiras no acesso à reserva. Integrante dessa equipe, Diana Maria de Assis expressou sua gratidão pelo projeto: “Para mim, é um privilégio muito grande trabalhar em um parque como este, em uma unidade tão importante. Também sou muito grata à doutora Niède por ter acolhido as mulheres”.

Considerada pela comunidade local como uma legítima habitante do sertão, a arqueóloga era chamada carinhosamente por apelidos regionais. Marian Rodrigues, atual chefe da unidade de conservação e também arqueóloga, ressaltou essa conexão profunda com o território: “A doutora Niède era uma legítima catingueira, como costumamos dizer. Era uma capivarense, porque mudou completamente a vida dela, veio morar aqui, trabalhou incansavelmente durante 50 anos e criou raízes nesta terra”.

A representatividade de Guidon ultrapassou a ciência e ganhou os palcos, a música e a literatura. Sua história inspirou a criação de um livro ilustrado por crianças, intitulado “Niède Guidon: a arqueóloga da humanidade”. Para a coautora Valeska Zanello, a trajetória da pesquisadora serve como inspiração diária: “O grande amor e a dedicação dela foram voltados para a ciência. Devemos muito a essa mulher. Conhecer biografias como a de Niède Guidon é importante para mostrar às meninas que existem muitas formas de se realizar e ser feliz”.

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